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| Pôster de divulgação do filme A Chegada (2016), de Dennis Villeneuve |
Este texto toma por finalidade uma análise criteriosa e
observadora do filme de ficção científica do diretor Dennis Villeneuve, a
Chegada (The Arrival no original), que estrela Amy Adams no papel da personagem Louis Banks, e Jeremy Renner
no do físico Ian Donnelly. O foco aqui é estritamente direcionado aos
conceitos da película que estão em perfeito alinhamento com os da profissão de
um Designer Gráfico.
A história retrata o drama da personagem de Amy Adams,
Louise Banks, que, anos após ter perdido a filha para o câncer, é convocada
pelo governo a traduzir e decodificar a linguagem visual de seres vindos do
espaço a fim de descobrir qual é o propósito dessa raça no planeta Terra.
Desde a primeira aparição de Louise Banks, uma linguista que
leciona em uma universidade, somos levados a crer que toda forma de linguagem é
a base da comunicação, e esta, a base da ciência, uma vez que uma série de
conhecimentos só podem ser posteriormente atualizados, corrigidos ou
contestados se tiverem sido armazenados em um meio de compartilhamento de
informação (livro) em forma de um canal de registro (letra) com acesso liberado
à pessoa ou grupo autorizados. Um designer precisa adotar esta ideia: a de que
a linguagem gráfica de sua composição deve cumprir o papel da linguagem oral,
possuindo o mesmo significado desta ou a complementando, estabelecendo esses
elementos de forma eficiente e quase exata aquilo que se quer comunicar ao espectador,
concedendo uma informação a ele sobre determinado objeto, e, claro, imprimindo
essa forma de comunicação em uma plataforma que permita que ela seja vista e
compreendida. Nada mais é que um sistema, no qual a marca de um bem de consumo
deve atrair pessoas e fazê-las se informar (de modo explícito ou implícito) sobre
o que o produto dessa mesma marca propõe para o consumidor.
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| Cena do filme na qual Banks tenta iniciar contato com os alienígenas. |
Outra concepção abordada no filme é a de que as pessoas
precisam adaptar seu próprio tipo de comunicação para fazer com que as outras
as compreendam. Na história, Banks precisa adaptar seu código de linguagem – no
caso, a língua do país onde mora – para a dos alienígenas, de modo que consiga
com eles estabelecer uma comunicação. Mas há uma implicação que dificulta essa
tarefa: nem todas as ideias e conceitos traduzidos terão as mesmas propriedades
que as da sua forma original. Em outras palavras, um livro em latim nunca será
eficientemente traduzido para outra língua mantendo seu verdadeiro significado,
aquele pertencente à cultura da pessoa que o escreveu. O conceito de uma
palavra em uma língua pode ser um predicado exclusivo dela e de sua cultura,
não podendo ser igualmente decodificada para outra língua pelo simples fato de
esta pertencer a outro conjunto social, portanto outros significados. Isso é
demonstrado na tentativa da personagem de Adams em compreender o verdadeiro
significado da palavra “arma”, traduzido da língua alienígena. Enquanto na
Terra “arma” simboliza genericamente instrumento bélico, no planeta dessas
criaturas ela atende por diversos significados, sendo os quais desconhecidos da
humanidade.
Analogamente, um designer trabalha assim: sua função é criar
uma marca ou ilustração que tenha o significado exigido pelo cliente. Contudo,
ele não saberá explicar de forma precisa o motivo que o levou a dispor as
letras de uma certa maneira, ou desenhar isso ou aquilo, porque o verdadeiro
significado de sua composição gráfica é fruto da união de suas próprias ideias,
algo que não poderia ser igualmente visto pelo consumidor ou pelo público, mas
que poderia ter uma harmonia com o contexto da sua composição e com o que o
cliente espera que seja feito.
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| Captura do rosto do personagem Ian Donnelly (Jeremy Renner) |
Em contraposição à personagem, eis que surge o físico Ian
Donnelly, papel de Jeremy Renner, personagem que aparenta sustentar apenas em
números e cálculos a sua linha de pensamento. Ian, no início do filme, crê que
a comunicação não é a base para a ciência, tampouco fundamental na geração de
conhecimento, servindo apenas como um veículo para a disseminação de partes
dela. Ele, talvez, possa ser entendido como uma alegoria às pessoas que não acreditam
que a comunicação visual, uma propaganda, ou a venda de uma informação ou
produto não têm como ponto essencial a construção de uma boa divulgação. Ou
seja, uma alusão às pessoas que desvalorizam todo o trabalho feito na produção
do marketing de um bem de consumo. Imagine a venda de bananas tendo por mascote
da divulgação dessa fruta uma pessoa pálida ou doente. Essa mesma pessoa, além
de afastar os olhos do público do que está sendo ofertado - em função da
associação entre doença e fruta -, não tem relação alguma com nenhum tipo de
fruta, quanto menos uma banana. Ou, além, visualize um cartaz de um evento
focando o público infantil e, no entanto, possuindo como parte da folha cores
vermelho-escuras em abundância e a fonte textual preta. Além de elementos
pouco coerentes (vermelho escuro em grande quantidade para evento infantil),
há também o problema com a fonte da letra e o fundo (preto, sendo uma cor
neutra escura, em um plano de fundo de cor vermelho-escuro, quente e densa, o
que dificultaria a leitura). Tais exemplos são ótimos para ilustrar como a
incoerência e discordância entre elementos composicionais de uma propaganda interferem
na atenção do consumidor que ela deveria atrair, podendo provocar neste uma
resposta negativa à maneira como algo foi divulgado.
Designer Gráficos são tão importantes quanto quaisquer
outros profissionais no mercado, assim como o foi a linguista Louise Banks, ao
tentar estabelecer comunicação com seres de outro mundo. Esses dois tipos de
pessoas possuem um único papel: estabelecimento de contato e a busca pelo
entendimento do indivíduo ou grupo que é contatado, mesmo que o verdadeiro
significado dos códigos usados não possa ser igual nos dois polos de uma
comunicação. Sem uma efetiva troca de informações - íntegra, que estabeleça o máximo de mútuo
entendimento – as duas raças, humana e alienígena, iniciariam uma guerra por
falta de eficácia na informação, da mesma forma que, na ausência de propagandas
e embalagens e da composição correta delas, o mercado se tornaria um ambiente
tão confuso que dificultaria até mesmo a busca de um produto ideal pelo
consumidor.



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